Dia 1
Cheguei a Portugal inchada de gomas e geleias, pelas quais sou completamente viciada, e viajei para um vale no meio do nada.
A clínica é constituida por uma série de cabines de pedra arranjadas á volta de uma casa central, com um jardim cheio de flores e um bando de galinhas a caquerejar á volta.
O meu quarto é básico e confortável e na minha cama encontra-se um panfleto com uma fotografia do aparelho digestivo. Diz que os sábios sempre fizeram jejum. Os antigos Gregos Plato e Hippocrates aparentemente também faziam jejum.
Até mesmo Jesus Cristo fazia jejum e também descreveu na Biblia como efectuar um clister. Pelo menos é o que diz este panfleto - por isso deve ser verdade.
Dia 2
Ás 7h15 o sino toca em frente ao meu quarto. Na sala de refeições encontro um grupo de jovens mulheres Inglesas a beber água quente com sumo de limão. Parece que alguém morreu e ninguém fala.
Aparentemente, falar é desencorajado até depois da sessão diária de duas horas de yoga. De seguida cambaleamos até ao templo de yoga onde eu tento pôr o meu corpo, envenenado por comida processada, na posição do "peixe". Ás 9h59 eu ainda não me tornei fan de yoga, apesar das suas já tão provadas propriedaded benéficas. Mas, descobri que consigo equilibrar-me numa só perna.
Ás 10h00 o jejum começa. Dão-nos um litro de sumo de laranja e um copo de argila, que combinamos com cascas de psyllium (que são muito usadas para aliviar a prisão de ventre). Isto vai actuar como uma vassoura nos intestinos, e varrer todas as toxinas para fora do nosso corpo. Depois, recitamos a oração de agradecimento dos sumos, que foi feita para focarmos a nossa mente nos bons nutrientes que vamos receber.
Ao sol e á lua, ao céu e á terra, cantamos, de mãos dadas como os extras no Dr. Who. A todos os elementais e espíritos da Natureza, nós agradecemos o sumo que estamos prestes a tomar.
Sumos de fruta e vegetais: a comida dos próximos 10 dias.
Não consigo imaginar dizer isto no meio do Starbucks. Mas aqui parece ser normal. Ás 13h00 e ás 16h00 tomamos sumos de frutas e vegetais acabados de fazer. Eles variam todos os dias: hoje é sumo de cenoura (para cabelos, unhas e olhos fortes) e melão (para serenidade). Ás 19h00 tomamos água quente com cheiro a vegetais. Caio á cama ás 8h30. Não me deitava ás 8h30 desde que tinha 7 anos.
Dia 3
Os outros começaram a falar. Há a Vicky, a recuperar de um casamento desastroso com um jogador de futebol da primeira liga, a Sarah, que também está a recuperar de uma relação, a Prudence, que ficou com um esgotamento nervoso devido ao trabalho cidadino que tem.
Também há a Marie, uma agente imobilária, Olive, uma professora, e a Claudia, uma maníaca viciada em troféus e competição que me ordenou para ir fazer uma plástica á barriga. Uma produtora cinematográfica chamada Liz já desistiu e foi-se embora. Ela fez as suas malas ontem á noite e foi conduzida ao aeroporto em completa desonra.
A camaradagem está a crescer entre nós porque estamos conscientes de que não vamos ter forças para nos odiar umas ás outras nos próximos dias. Deitamos-nos pela piscina e só nos levantamos para ir á massagem Thai, ou a Shiatsu ou Yoga ou Cura de Cristais.
A maior parte delas estão a fazer os clisteres clysmatic - irregações colónicas auto administradas que estimulam os intestinos. Mas, eu não consigo. Tenho problemas com tubos. E já não suporto mais a maneira como o Chris, o cozinheiro dos sumos, se vira para mim e diz "Clysmatic?" cada vez que entro na sala de refeições.
Dia 4
As cascas de psyllium estão a inchar no meu estomâgo como um barco insuflável e eu não tenho fome nenhuma. Peter, o acumpunturista que se parece com um lutador de boxe que descobriu Deus, diz-me que tenho um fígado hiper-activo: Quando te zangas, ele diz-me, a energia liberta pelo teu fígado vai para cima e causa calor e agitação. É tipico de jornalistas. A energia do meu baço também não está muito bem e isso causa problemas digestivos. Ele diz que vai tentar acalmar o meu fígado e deixar o meu baço novamente bem disposto.
Dia 5
Sinto-me como um recém-nascido: tudo o que faço é ingerir liquidos, chorar e dormir. A Dieta de Jejum de Sumos. Como mais nos poderia fazer sentir?
Dia 6
A fome chegou hoje. Estava a discutir implantes mamários com a esposa do futebolista quando, de repente, uma imagem de molho de carne explode dentro da minha cabeça. Fui para a biblioteca - contém livros com títulos como Cristais Cósmicos e Os Ventos De Mudança - e ataco o computador para ir fantasiar pela website da Delia Smith. Passo o resto do dia a babar-me e tenho de ser fisicamente removida pela Marie daquilo que custumava ser chamada a hora do jantar. E não sou a única. Ao jantar, falamos de lasagna da mesma maneira que os Russos custumavam falar de Lenin - isto é, com uma intensidade aterradora. Durante esta semana toda ingeri menos calorias (950 por dia) do que custumava ingerir num simples ataque de fome á meia-noite... numa só noite. Esta noite tive um sonho de rendição acerca de uma barra de chocolate Mars.
Dia 7
Todos parecem que acabaram de sair da limpeza a seco: frescos, limpos e pomposos. A lombriga parasitica intestinal da Marie, que ela trouxe com ela da India como se fosse um bichinho de estimação, saiu-lhe pelo traseiro. O Peter diagnosticou correctamente endometrose (uma doença do útero) á Prudence simplesmente por tocá-la. Até a mulher dos troféus tem um raro momento de claridade e diz que já não volta a fazer nenhuma cirurgia plástica, mas está com ideias de deixar o marido.
O jejum está a limpar muito mais do que toxinas dos nossos sistemas digestivos. Sentimos-nos centradas, calmas e cheias de vida.
Dias 8-10
Apesar das visões semi-religiosas de uma barra de chocolate Mars estarem sempre presentes, o meu corpo continua a estar sem fome. Eu apercebo-me de que tenho andado a alimentar gomas e geleias, não ao meu corpo, mas á minha alma zangada. E sinto-me diferente. Sinto-me ligada a todas as coisas vivas - ás flores e aos passarinhos. Se disse-se o que vou dizer a alguém fora dos Moinhos Velhos eu seria internada, mas o meu fígado está feliz e o meu baço está extático!
Dia 11
Hoje quebramos o nosso jejum com frutas e vegetais e amanhã com hidratos de carbono para conduzirmos os nossos corpos lentamente de volta aos alimentos sólidos. Provavelmente por nos termos apoiado umas ás outras e por termos tido um terapeuta alternativo á disposição 24h por dia e 7 dias por semana para nos abraçar e acalmar, agora parece-nos que foi tudo muito fácil. Ao pequeno almoço batemos palmas quando um sumptuoso prato de fruta apareceu. Mas o mais estranho é que embora a comida tivesse um sabor magnífico nós não a achámos muito interessante. Era só um bocadinho interessante em vez de ser interessantíssima. Será que o tenebroso romance que tinha com a minha barriga chegou ao fim?
Dia 12
Perdi 5Kg. Estou deslumbrantemente linda.
Dia 13
Hoje comi uma batata muito lentamente. Ainda estou deslumbrantemente linda.
Dia 14
Sinto-me calma e limpa, como um aspirador com um saco novo. Mas, estou com um pouco de medo do futuro. É muito fácil adorar o nosso corpo num vale cheio de gente que nos atacam se dissermos "manteiga". Mas na cidade mal-cheirosa de Londres, pode não ser tão fácil. Posso facilmente começar outra vez a tratar o meu corpo como se fosse um ex-amante desprezado.
Mas o Peter dá-me um sermão final, em particular sobre o meu mau hábito de comer demasiado: Comida processada é má, ele resmunga. Alcool e cigarros são muito maus. Fruta, vegetais, grãos de leguminosasa e hidratos de carbono complexos são bons. Sim à yoga, não às drogas (obviamente). E fazer jejum uma vez por ano. O jejum, ele diz, a abanar o dedo á minha frente, é simplesmente um começo.
Enquanto esperava no aeroporto recebi uma mensagem da Marie. Era uma parábola das tentações da vida moderna. Nós estamos todas bêbedas com sangria, ela dizia. E a Prudence passou a ser fumadora.
Elas bem que se podem estar a re-intoxicar num bar qualquer, mas eu não me vou juntar a elas. Não desta vez. Ignorando os pacotes de gomas e geleias embarquei no avião.
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