Há duas maneiras de fazer férias: ou se viaja ou se vai para um sítio e fica-se lá. Até há bem pouco tempo, o Club Med era uma das maneiras de se viajar para um sítio, ficar lá e basicamente passar uns dias iguais quer fosse em Marrocos ou nas Bahamas com a tranquilidade de um serviço "standard". Mas, nos últimos anos, algo tem mudado no conceito de férias. Há uma sofisticação, que terá começado com a era "new age" (um chavão popular há meia dúzia de anos e de que já ninguém se lembra muito bem). Neste novo conceito, o cliente tornou-se o centro das atenções. Nada de vistas, de cultura, nem turismo, portanto. É aqui que entram os "spa's", que são uma mistura entre o instituto de beleza e umas termas a que se adicionaram requinte e preços elevados. Há "spa's" especializados numa infinidade de terapias, mas todos estão normalmente associados ao prazer físico que qualquer ser humano sente deitado numa marqueza coberto por cremes sumptuosos, mesmo que tenha que pagar bem por isso. Aliás, sobretudo se tiver que pagar bem.
Mas haverá alguém que passe cheques para fazer jejum? Há uns meses a revista "Style", do britânico "Sunday Times", elegeu os 10 melhores "spa's" do mundo em diversas categorias. No pacote jejum, yoga, e meditação, os repórteres da "Style" escolheram os Moinhos Velhos, aberto há dez anos, num sítio perfeito, junto á Barragem da Bravura, perto de Lagos. É difícil arranjar vaga para os Moinhos Velhos que, por ano recebem cerca de 130 pessoas por períodos de 14 dias, 10 dias ou 7 dias. Num programa normal de 14 dias o jejum começa a um sábado e termina 11 dias depois, quando começam a ser progressivamente introduzidos alimentos sólidos. Mas, na verdade, a aparência dos clientes dos Moinhos Velhos não é, surpreendentemente, nem a de zombies subalimentados, nem a de fanáticos. "A maior parte dos nossos clientes são pessoas com trinta e muitos anos, com cursos superiores que têm carreiras bem sucedidads e de grande responsabilidade", explica Anne Karine Moss, a noroeguesa co-proprietária de Moinhos Velhos. Na semana passada, 50% dos clientes eram provenientes de Londres, 80% estavam na casa dos trinta anos, e 0% eram portugueses, o que confirma a ideia de que temos um saudável pavor da fome e, se calhar, relutância em gastar a tarifa que custa a estada mais barata nos Moinhos Velhos.
Marike, uma holandesa residente em Omã, e que se increveu no programa pelo terceiro ano consecutivo, explica: "A fome é uma coisa terrível na vida de qualquer ser humano. Ninguém se aguentaria aqui com fome. De facto, até nos sentimos com mais energia". O programa não é, no entanto, só a privação alimentar, nem tem como principal interesse a perda de peso. O objectivo é uma desintoxicação do organismo, conseguida através da ingestão de sumos de frutas e de vegetais, de tratamentos de medicinas alternativas e de uma consequente pacificação da mente. O dia começa ás 7h, momento em que é servido um copo de água com sumo de limão, ao qual se segue um período de cerca de duas horas de meditação e yoga numa pequena construção envidraçada junto á piscina. O pequeno templo, dominado pela imagem de Shiva, tem nas paredes uma profusão de quadros de vários líderes religiosos, desde Cristo ao Dalai Lama. E embora os símbolos hindus parecem mais evidentes, por associação ao yoga, Anne Karine faz questão de afirmar: "Não somos hindus. Estamos abertos á espiritualidade, mas não à religiosa organizada". Por isso, os líderes espirituais estão lá e dirão qualquer coisa a cada um.
Às 10h, o pequeno-almoço é um litro de sumo de laranja. E às 13h é servido na sala de refeições, o segundo sumo de fruta acompanhado de uma caneca com um pouco de sumo de maça a que é adicionado uns pós, descritos como excretores de toxinas. O facto de os pós estarem numa taça da qual a Anne também se serve é tranquilizador. Ao longo do dia são tomados outros sumos e cápsulas com finalidades específicas e que fornecem igualmente nutrientes essenciais para impedir a quebra de vitalidade, segundo a descrição dos papéis disponíveis. Á noite é servido um caldo de legumes.
Sarah trabalha na Haven Trust, uma das mais conceituadas associações de beneficiência britânica. É uma trintona esclarecida, bem disposta e recém-divorciada que está a dar uma vassourada geral na vida. Conta que após o divórcio limpou a casa de todo o lixo e pensou fazer o mesmo consigo própria. Procurou na Internet um programa de jejum e enviou "mails" para alguns "spa's" em sítios remotos. "Quando lhes respondi que já não estava interessada mandaram-me uns "mails" assustadores. Ameaças. De todos os "spa's" que vi, achei que este era o mais profissional. Pensei que ia sentir-me segura nas mãos desta gente e não me enganei. Não é à toa que se faz uma coisa destas."
De facto, há algo ligeiramente pertubante em submeter o corpo a uma lavagem e a tratamentos como o de Bicom, uma máquina inventada em 1977 por um médico alemão e cujos tratamentos funcionam através de uma espécie de inversão das próprias vibrações do paciente. Uma coisa que tanto parece sofisticada como a máquina que o Dr. Frankenstein usou para fazer a sua criatura. Na explicação fornecida em panfleto por Anne, parece tecnologia de ponta e alguns prémios Nobel da Medicina são citados.
Durante a tarde ou de manhã os clientes são submetidos a vários tratamentos, desde o Bicom, manuseado por Anne Karine, á Kinesiologia, em que Frank Jensen (fundador, com a mulher, Anne, dos Moinhos Velhos) se especializou. Frank, na sua sala, recheada de diplomas que atestam a sua boa prática de terapeuta alternativo, produz medicamentos homeopáticos e trabalha com essências florais que diz terem um efeito emocionalmente apaziguador.
Frederik é outro dos clientes londrinos do "spa". É um jovem consultor financeiro de aspecto atraente e diz sentir-se optimamente com o jejum. Veio para recuperar forças para mais um ano de intenso trabalho e entre os seus conterrâneos é o único que não está num momento de ruptura. Marianne, por exemplo, despediu-se do cargo de gestora dias antes de chegar á Barragem da Bravura. Iniciou uma paragem de dois anos e tem um projecto ousado em mente. Quando regressar vai: 1) redecorar a casa que comprou fora de Londres, 2) fazer um mestrado, 3) ter filhos. Como diz Anne Karine, a sorrir, as pessoas vêm cá, fazem o programa e voltam mais fortes para a vida agitada que tinham antes - é o caso de Frederik - outras põem tudo em causa: "Umas deixam os empregos outras deixam os maridos". Sarah explica que os 15 dias que está sozinha a cuidar de si é a melhor prenda que poderia ter. "Estamos sempre envolvidos em milhares de coisas e nunca preocupados em percebermos o que realmente queremos." É caro? "Vale cada libra", diz Sarah.
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